domingo, 16 de julho de 2017

Que bom te ver!

Como é doido o que o tempo faz, o tempo faz passar muitas dores, superarmos perdas, nos refazermos... Mas é estranho quando brigamos com alguém e deixamos o tempo passar, sem um pedido de desculpas, sem uma reaproximação, de propósito ou não o tempo cria obstáculos para o retorno, dificulta a fala pois a intimidade já secou, ressecou os lábios para um sorriso, para esse ato tão simples e sutil. Com os anos, já não conseguimos sustentar o olhar, já não há a raiva, o arrependimento, a mágoa... tudo isso já passou, já não deseja o distanciamento, e vocês que um dia já disseram tantas coisas com os olhos sorrindo um pro outro, que já se reconciliaram assim tantas vezes, embora desejem fazê-lo já não conseguem. O encontro desses olhares é cheio de vergonha, de culpa, por terem sido tão egoístas e orgulhosos, por terem deixado as coisas chegarem a esse ponto, de ambas as partes. Mas talvez seja uma fase, talvez um dia consigam  se perdoar pelo erro e encarar o outro, talvez.
Depois de passados três anos sem nenhum contato com alguém que tanto amei, e amei de todas as formas imagináveis, e consequentemente de todas as formas também me feri. Depois de tentar esquece-lo, depois da paixão acabar, da amargura passar o orgulho desfez suas barreiras lentamente. E ainda vislumbro um amor, aquele que um dia dissemos um pro outro que nunca acabaria, aquele que você me disse que não acabaria mesmo que nossos caminhos fossem diferentes. E de fato foram. Mas me sinto tão feliz hoje, de ver que esse amor de amizade ainda existe, mesmo que seja lá no fundo, mesmo que seja um pouco. Tudo está explicado, não se faz necessário nenhuma conversa séria, tudo se dissolveu, se resolveu como sempre. E sinto uma paz... depois de achar que esse reencontro nunca mais seria possível, sinto que nossa amizade não mudou e ao mesmo tempo se renovou, tudo é diferente e igual. E ainda entendo o seu olhar, depois todos esses anos afastados, ainda entendo suas atitudes e sei que está tudo bem, enfim. Achei que já havia gastado todas as palavras pra falar de nós e que já não faria mais sentido escrever nada depois de 3 anos, mas faz: que bom te ver!




o outono que fomos

Estamos no outono de novo, faz frio e chuva e eu conheci uma pessoa hoje, mas só me lembro de você. E o que dói nisso tudo, não é o frio em si, que eu gosto, mas sim um fato: conheci uma pessoa, mas esse tempo sou eu e você um ano atrás. Esse vento é o mesmo da sua respiração, a mesma temperatura das suas mãos frias escondidas por debaixo do meu cabelo, no meu pescoço, enquanto eu conversava com outra pessoa e tentava disfarçar a sensação. Tem o som das nossas risadas como se estivéssemos sendo discretos, naquela nossa terceira primeira vez. Tem a mesma chuva que chovia enquanto você deitava a cabeça no meu colo quando nos deixaram sozinhos. O sopro gelado é o mesmo, as ruas molhadas, o chão do estacionamento do supermercado empoçado... Tudo é idêntico faltando você.
A quentura da minha cama, das minhas cobertas no meu quarto, a noite é a mesma de um milhão de noites de conversas nossas, faltando a sua voz. Quando começávamos uma discussão idiota e eu largava o celular e virava pra parede tentando dormir, te ignorando de propósito, começando a ficar com raiva depois pela sua demora para responder, e então quando estava quase pegando no sono, achando que você tinha levado a sério demais a brincadeira,  o celular começava a tocar freneticamente e eu sabia que era você. Tentava continuar fingindo que estava dormindo, rindo da previsibilidade, do nosso jeito idiota, da nossa sintonia... E acabava te respondendo minutos depois e nossa conversa engatava de novo que só percebíamos quando era 4 horas da manhã.
Dias e dias se passaram assim, eu e você e tudo que nunca vai ser possível explicar que existiu. Quando você me disse, numa dessas nossas conversas de semelhanças, que se a gente ficasse junto não iríamos sair de casa, porque nesse tempo preferimos ficar embolados, comendo pipoca, vendo os filmes e series que gostamos... Que falou que eu era sua e você era meu, e tantas outras coisas.  Mas como é possível explicar isso pra alguém? Como explicar isso que a gente tinha tao abstrato? Como explicar essas pequenas coisinhas, essas pequenas demostrações da convivência desse nada que tivemos, com todas as nossas conversas, nossas semelhanças, nossos segredos...  Como posso dizer que isso foi nada? Mas não sei explica-lo. Isso, que pra mim foi tão especial, não tem nome.
Os meses passaram e eu tô até hoje tentando entender o que aconteceu com a gente, com você. Em que momento passou a depender tanto de você a nossa paz. Talvez meu erro tenha sido acreditar que, como tantas outras histórias, a nossa também poderia começar assim, com uma amizade que dá tão certo  e escapa sem querer virando algo maior. Passei dos limites tentando recuperar nosso jeito de antes, sozinha. Nossas conversas sem fim, nosso companheirismo leve que não contava hora e até do seu jeito estranho de dividir as coisas comigo, seus áudios tossindo de manhã, as fotos dos pratos que estava comendo, a louça lavada, o café, as piadas... Mas de repente fiquei sozinha nisso.
Conheci uma pessoa hoje, mas não consigo enxergar alguém depois de você, procurar outro corpo depois que conheci o seu. Não consigo fingir que ainda não sei o que é estar completamente aberto e a vontade com quem gostamos, me forçar a acreditar que existe outra pessoa por aí em quem eu queira me aninhar novamente, que não seja você. Não consigo acreditar nisso, que vou me sentir daquele jeito outra vez. Eu tento, mas não consigo. Como posso sonhar com o rosto de outra pessoa depois de pegar no sono olhando os teus olhos dormirem? Me sinto ainda mais sozinha, ainda mais sem você nesses dias que tudo é igual, uma repetição do passado, de um ano atrás.
Nós que não deixamos nada pra voltar atrás, presentes para devolver, nem roupas para buscar. Que perdemos os amigos e a amizade nessa coisa sem forma, que não foi nem um relacionamento de verdade para terminar, nada que exigisse uma conversa pessoalmente para resolver a situação com o mínimo de respeito... apenas seguimos nossos caminhos apartados, pois não guardamos nenhum pretexto pra voltar. Guardamos apenas a hipocrisia, de fingir não ter sido nada, de fingir que ainda somos amigos.
Não tivemos testemunha de como, nem de quando começou e assim acabou, sem ninguém para intervim por nós. Um segredo que nunca mais falaremos, nem com você, nem comigo e só caberá aos olhos a recordação. Olharei pro chão, engolirei o choro... aquilo que poderia ter sido uma historia, desapareceu. Não ocupa lugar, não tem retrato nem documento, não existiu! E só lembra quem quer.

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Você que não conheço mais

Quando ele chegou meu coração se atentou como sempre, não sabia ainda que estava sozinho e por isso estava meio tensa, mas antes que eu percebesse, ali estava ele procurando meu rosto, com um tapinha no ombro para me cumprimentar... uma formalidade que hoje em dia é o que temos, mas confesso que me remeteu às nossas manhãs de tempos atrás, quando ele simplesmente surgia com o rosto na minha frente aguardando um beijo. E desde aquela época ele é melhor do que eu nesse aspecto, percebi.
Engraçado o dia, coincidência talvez, porque eu estava esperando que ele estivesse acompanhado e errei, pela segunda vez, na mesma ocasião sei lá quantos anos depois.
Me forcei a não olhar muito pra ele, mas pude perceber as mudanças de longe, em silêncio a princípio, fingindo naturalidade ou uma superioridade que na verdade não existe. Tive a impressão de que ele se esquivava, que trocou o lugar pra ficar mais distante de mim, como se não pudéssemos mais ficar próximos, o vi sentando no fundo de propósito, com alguém impedindo o contato dos nossos olhos, o vi se encolher
Mas a medida que as pessoas iam embora fui me aproximando, àquela altura estávamos praticamente entre amigos e pude me soltar mais, puxar um assunto... conforme conversávamos me lembrava de alguma coisa que queria contar ou lembrar, falava de coisas do passado incessantemente. Meu euforismo beirava o ridículo, falando mais que de costume, levantando a voz, tentando chamar a atenção dele de alguma forma, acho que o cutuquei uma vez forçando sua memória. Os olhos dele então vagaram em outra direção se esforçando e voltaram pra mim por meio segundo, perdidos... varias vezes naquela noite. Em alguns momentos, ele se lembrava, dizia que fazia muito tempo, surpreso, em outros, ele apenas silenciava e eu procurava no seu rosto alguma resposta, mas não havia nada. 
Era evidente que, para ele, aquilo parecia ter acontecido em outra vida, e de fato havia acontecido, mas sua memória era rarefeita demais. Aquilo me irritava, mas não podia conter o impulso de falar com ele coisas que achei que nunca mais teria a oportunidade de falar, mesmo que fossem coisas banais. Esperava a velha gargalhada, a sinceridade de antes, ou um comentário qualquer sobre as coisas que estávamos conversando, alguma palhaçada que ele sempre fez, algum sinal de que ele se lembrava da época em que éramos amigos.
Mas ele mudou tanto... Ele não me encara mais, só o faz quando é estritamente necessário, rapidamente e parecia não se interessar muito pelas coisas que eu contava, mesmo sendo algo referente a nós dois, estava aério, desviava os olhos enquanto eu falava, não sei se de propósito, ou não. Seu sorriso mudou, o jeito de se vestir está diferente, a barba crescida, o cabelo mais ralo, mais magro... mas, tirando tudo isso, sua expressão é preocupada, é distante. O riso largo, fácil, os olhos brilhantes apertados... Sumiram. Ele é outra pessoa, pelo menos comigo e eu nunca imaginei que um dia não reconheceria nada nele, aquilo me chocou.
Cheguei em casa ainda confusa, processando esse reencontro, sem saber se estava feliz por termos tido esse pequeno tempo em meio a imensidão de anos que passamos e passaremos sem trocar mais do que um cumprimento, ou triste pelo jeito estranho que ele me tratou, furiosa por ter devolvido um abraço com três palmos de distância que ele me deu, por não ter dito nada quando nos despedimos... quando cheguei em casa me dei conta de que queria chorar e chorei. 
Mas hoje me toquei, que perdemos a conexão e que nada do passado vai fazer mais sentido pra ele. O coração se esforça pra lembrar, mas não faz sentido. Talvez nossa amizade, ou pelo menos a lembrança dela, dependa da outra parte que fomos, mas não somos mais, nós somos outros e por isso seja estranho, seja distante o contato. E não sei se me decepcionei mais com ele ou comigo mesma, porque achei que nos faltava apenas a oportunidade, que com a primeira lembrança nossa do passado aquele sorriso surgiria, o reconhecimento estalaria por dentro e a luz dos olhos dele acenderiam outra vez, numa gargalhada aberta ou mesmo numa conversa silenciosa que tantas vezes soubemos ter.   
Os tempos são outros, e nada se acendeu. Não posso esconder a frustração, sabia que um dia minha função seria trazer algum momento do passado para que ele (me) reconhecesse, porque sempre foi assim, ele nunca lembrava de nada até eu contar com detalhes e então ele ria com os olhos quase fechados, o sorriso aberto, leve e fazia algum cometário, alguma brincadeira... e eu ainda consigo ver essa risada na minha mente. Mas ele não ri mais assim, não pra mim, é como se ele não se lembrasse de mim. Fiquei ali diante dele, como a companheira de um alguém com Alzheimer que aguarda um momento de lucidez, escolhendo uma história do passado que desse vida àquele sentimento outra vez, mesmo que por alguns segundos... mas nada aconteceu, a lucidez não veio. 
Sei que não vejo mais aquele brilho em mim, que a vida hoje é fosca, sem as cores de todas as oportunidades que tínhamos, toda a infinidade de caminhos a nossa frente, quando tudo era simples e ilimitado... hoje é preto e branco, atos e  consequências.  
Acredito que isso aconteceria de uma forma ou de outra, mesmo que não tivesse partido de mim, o fim seria esse. E ele ainda é tão especial pra mim, o sentimento de carinho perdura apesar de não termos mais nenhuma ligação, de não sermos mais os mesmos... porque a consciência não muda esse fato, a consciência não torna isso fácil ou melhor...É triste, triste mesmo entendendo e dói. Eu só não tinha me dado conta disso, porque também nunca havíamos tido essa oportunidade de conversar outra vez e me partiu ao meio chegar a essa conclusão, mesmo quando já nem sabia que havia algo aqui em relação a ele que pudesse ser quebrado. Mas acho que agora foi o último pedaço.

terça-feira, 29 de março de 2016

Nossa conversa

Hoje Mãe, no fim do domingo de páscoa, em casa, na hora na minha oração antes de dormir, comecei a pensar em como a minha religião é uma coisa ainda tão obscura pra mim e me lembrei da minha catequese, que você fez questão que eu fizesse, apesar do momento em que nossas vidas estava passando. Acredito que o seu intuito com isso, era o de me passar a coisa mais importante de todas para um ser humano: o amor de Deus, os ensinamentos de Jesus. E acho que aprendi o essencial, mas continuo sem saber muitas coisas, sobre a religião em si. E fiquei pensando que a catequese nessa idade é um equívoco, porque as crianças ainda não têm o entendimento sobre a vida, sobre Deus, mesmo frequentando a igreja todos os domingos. E é muito cedo pra conseguir entender das coisas da igreja, mas tiro por mim essa conclusão. E isso me lembrou você, suas orações todos os dias no horário do jornal, no quarto com a porta encostada,da sua bíblia todos os dias, do seu lado, na cama... nesse seu horário sagrado. E me fez pensar a quanto tempo não abro a sua bíblia, ha quanto tempo ela está lá, fechada, no mesmo lugar da minha estante, junto dos outros livros. E comecei a pensar, que com certeza eu deveria tentar lê-la, pra aprender as coisas que não sei, já que você não está mais aqui pra me explicar. E acho que eu deveria saber, porque quero um dia poder sanar os questionamentos dos meus filhos, como sei que você faria. Em todo caso, se não for por esses motivos, eu ainda assim deveria ler sua bíblia porque sei que estarei mais próxima de você, por diversos motivos... Nas coisas que você marcou e escreveu nela, como uma mensagem pra mim do passado. Sabendo que em tempos de vida adulta, com a vida prestar a começar e ainda tão distante, sem direção, as respostas que busco encontrar de Deus pra minha vida, é você quem vai me dizer!

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

o tempo que insiste em voltar


No início havia algum tipo de paz, quando percebi que você não voltaria. Poderia me esquecer do celular, esquecer de propósito, pro hábito não me trair. Porque não seria você, a nenhuma nova mensagem, nenhuma ligação. Nenhum sinal seria seu. Tentei me cuidar mais mesmo sabendo que você não veria... 
Tentei mudar os hábitos, focar em alguma coisa, ler três livros ao mesmo tempo, estudar, me ocupar de todos os jeitos, preencher todos os espaços da minha mente. E fiquei bem, passei por aqueles momentos em que sentimos que já foi tudo superado, que estamos melhores. Quando conseguimos dar nossos passos firmes. Mas essa sensação de bem estar é uma ilusão que a saudade só desvenda depois. 
Essa sensação antecede o tropeço e a saudade é o tropeço, uma doença. É a nossa queda justo quando estamos começando a alçar voo outra vez. É como uma fisgada que nunca sabemos prever. Uma dor que não sabemos remediar. A recordação nos assalta na rua, no sol, no meio de uma conversa com alguém, em qualquer lugar... e arranca com brutalidade as barreiras que construímos para impedir a nós mesmos de olhar pra trás. 
Com o tempo a saudade seca cada gota de todo nosso esforço, nos revira de dentro pra fora, nos faz regressar repetidamente todos os passos dificultosos que conseguimos dar. É como um jogo de tabuleiro que, vez por outra, nos manda de volta ao inicio. 
A qualquer hora do dia, onde quer que eu esteja, eu me lembro de nós dois, meu corpo fica atento com o fantasma da lembrança sua fazendo tudo de novo em mim, aquele arrepio percorre cada parte minha como se fosse real. Mas é cruel! Gostaria de estar sozinha, mas infelizmente não estou. Estou constantemente acompanhada de uma presença sua que não existe mais.
Não sei mais nada da sua vida de propósito, escondi nossos retratos pra tentar esquecer do seu rosto, me afastei por completo, fiz novos planos, cortei os cabelos, perdi peso. Tentei ser outra pessoa pra fingir que nunca aconteceu nada entre nós. Que nunca nos olhamos nos olhos com intensidade, que você nunca me embrulhou dentro dos braços. Que a manhã nunca nos surpreendeu depois do cansaço, quando o sono começava a chegar no meio da nossa conversa. Fiz de tudo pra não fraquejar e me agarrar as certezas que tinha, mas a saudade só me deixou duvidas e suposições que nunca serei capaz de tirar.
Mas o que pude fazer eu fiz, o que pude trocar de lugar, esconder, eu escondi! E mesmo assim, nunca se sabe o que vai nos remeter a um momento qualquer do passado. Pode ser outra pessoa que eu veja, mas vejo você. Pode ser outra pessoa falando, mas a voz que eu ouço é a sua! Saudade é isso, é nunca saber o sintoma, nunca saber o que causa a lembrança e apenas aguardar a dor. É estar sozinho numa história que era de duas pessoas. Tento descobrir como esconder de mim o que esta dentro, e nem sei se tem como... fingir pra mim mesma que meu coração nunca quis que você ficasse e que a saudade é uma teimosia boba. Pra conseguir ser sozinha de novo. Sentir como se não faltasse nada, como antes de você surgir. Porque agora falta e a sua falta é a pior das companhias.


quinta-feira, 27 de agosto de 2015

chegou pra tomar um café, e ficou


De que serve a razão nessas horas? Nunca consegui usá-la. De que serve a razão depois que deixamos aquela pessoa atravessar nosso caminho de novo, depois de tudo, do afastamento, da estranheza... o que foi preciso pra que eu te deixasse entrar, como quem não quer nada aqui outra vez, cheio de passado, de recordações que não sei se estão latentes dentro de você ou não? Foi preciso o que?  Uma mensagem, duas, um reencontro ao acaso na pizzaria e pronto, estávamos conversando como os amigos de antes, cheios do cinismo divertido das nossas conversas, descobrindo, depois de tantos anos sem aquelas nossas longas conversas, novas afinidades, muitas! E alguns gostos divergentes... a  pizza de frango e de calabresa, minha paixão por doce e a sua indiferença. Gostávamos das mesmas series sem saber.  Na cabeça regressando a lembrança de uma loucura que ficou por terminar... As mesmas brincadeiras retornaram, assim, sem precisar de muito tempo, sem desculpas, sem perguntar da vida, sem pedir licença. Foi entrando como quem chega pra tomar um café, e ficou. 
Nessa hora já não usei a razão, deveria tê-lo feito, mas... Depois que começamos a conversar aquele dia, sem querer já não consegui ser racional e me utilizei de uma desculpa coberta de uma falsa razão pra te deixar ficar. Nós eramos amigos, não tinha nada demais conversarmos, o problema é que depois de umas conversas a intimidade de anos atrás já estava de volta e era impossível regressar um passo, o tipo de coisa que não tem volta, era hipocrisia depois de tudo ser indiferente. Você não queria namoro, nada serio pra agora, tinha muitas coisas coisas pra fazer, planos, carreira, estudo e eu também, um namorado me atrapalharia, tinha acabado de me formar, estudando pra concurso, talvez começasse a advogar, queria viajar... O que não deixava de ser verdade, me acobertei dessa desculpa pra continuarmos juntos, mesmo que sem futuro, mesmo que sem promessa, porque nos dávamos bem demais pra não experimetar.
Me pergunto aonde esteve a razão nessas horas, nas horas que estávamos juntos, sozinhos, ou até mesmo enquanto conversávamos e íamos nos despindo em palavras... me desarmei sem me dar conta. Mas me pergunto por que a razão foi tão fraca e não conseguiu me impedir de te ver, de te falar tantas coisas, que não me impediu de deixar você entrar nos meus sonhos, não foi suficiente pra me deixar afastada mesmo em todas as vezes que brigamos? A razão é muito fraca! E é tão difícil ser racional depois de um carinho, depois de um sorriso, depois de um beijo ou mesmo do olhar que antecede o beijo. Queria conseguir, mas confesso que, até mesmo longe dessas coisas, era difícil calcular o dano, o estrago, ser matemático e calcular a porcentagem de prejuízo que teremos no final...
Minha razão nunca foi rápida o bastante pra chegar antes dos meus sentimentos, pra me impedir de imaginar, de aceitar o primeiro beijo, de perder a vergonha com você, a razão nunca chegou antes de eu aceitar seus carinhos, nunca chegou antes da sua mão encontrar a minha, antes da sua boca encostar na minha enquanto sinal estava fechado, a razão nunca chegou antes de eu aceitar os seus braços abertos pra eu deitar, nem chegou antes de eu permitir que você deitasse a cabeça no meu colo, antes do carinho no meu pescoço, antes de todas as risadas que você abriu no meu rosto com suas piadas ridículas, com coisas que só nós dois sabíamos... nunca! A razão é sempre lenta, até mesmo quando penso em você, quando lembro... Ela sempre chega depois, com as piores conclusões, tardias, precisas... o sopro de um desastre, o eco de um desmoronamento que se aproxima acompanhada da tristeza. Ainda não sei se consigo ser racional, ainda hoje não posso afirmar, estou em silêncio aqui reunindo coragem e serenidade pra colocar um ponto final nisso, pra deixar tudo isso pra trás. Antes que eu crie uma outra desculpa pra te deixar ficar, antes que eu lembre de como era divertido nós dois juntos... Agora, depois de tudo.
E depois das lembranças da gente, de lembrarmos juntos de nós dois anos atrás, do que poderia ter acontecido, e esclarecermos tudo, cada detalhe tão vivo na sua memoria, coisas que nem eu lembrava... E nos vermos de novo e ver que a gente se dava bem demais pra que restasse espaço pra razão. Fomos então terminando o que tinha ficado inacabado há tantos anos, saboreando etapa por etapa, consumando nossa intimidade e nos abrindo anda mais, e nos olharmos diferentes... Porque era tudo diferente, nós eramos diferentes, os anos passaram e quantas coisas aconteceram em nossas vidas, as circunstâncias agora também tinham mudado e talvez houvesse uma chance pra gente...
Mas não entendo a mudança, não entendo o que houve de errado nesse meio tempo, se tudo era tão bom! E fico aqui a me questionar se confundi a razão, o propósito da gente - se há de fato um proposito para cada reencontro na vida - se o nosso era esse, apenas terminarmos o que deixamos em aberto? Poderia toda a nossa afinidade ter a ver só com isso? Esse propósito pra gente me parece superficial demais! Dentro de mim ainda está em aberto... lamento dizer.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

silence is an answer too

Isolation is a killer


Sei que estou me despedindo de você, antes mesmo de partir, antes mesmo de você saber que vai embora, que eu sei que você vai. E faço isso porque não sei se quero me acomodar nesse lugar com você. Minto! Eu quero, se você me perguntasse, se você também quisesse... só não sei se estou preparada para me desacostumar depois de tudo, depois de toda intimidade. Não sei brincar disso. Por isso tô aqui pensando que não devia ter dividido tantas coisas com você e tô agora tentando me desfazer das lembranças, me desfazer das coisas que guardei pra te contar, pra ver se vou partindo aos poucos, se vou esquecendo as coisas que planejei pra gente, sem querer.
Nunca te falei exatamente o que se passa na minha cabeça quando você some, pra você não achar que sou louca, mas falei que não era nada bom e por isso odiava seus sumiços,seu silêncio.O seu silêncio fez isso com a gente! Seu silêncio me questiona coisas que não sei responder, perguntas que não quero fazer nem pra mim, nem pra você. Seu silêncio remexe o passado, me tranca com essas questões que não quero ponderar, com memórias que quero esquecer, de você, de mim... uma série de coisas que não sei se estão resolvidas ou não. Vejo algo e separo pra te mostrar e depois desisto, lembro de algo que quero te contar e me calo... seu silêncio me retrai, me apavorada e sobretudo, me afasta de você, me empurra pra cada vez mais longe. E me pergunto se você está de fato ao meu lado, se é apenas parte de você, ou se já me virou as costas... Fico no escuro e odeio! Te odeio por isso!
Aí vou me despedindo aos poucos de você, dentro de mim e é inevitável não fazer isso, porque me desespero tentando me proteger da sua falta. Vou  então ocupando meus pensamentos com outras coisas, tentando me afastar e sair assim, pelos fundos, à francesa, pra que EU não perceba - até porque, acho que isso já não faz diferença pra você -Vou arranjando um jeito de contar a mim mesma que estamos acabando... que estou desistindo de falar sozinha (com você). Queria te falar do frio que tá fazendo de novo, conversar sobre aquela noite, falar que tinha esquecido do episódio da cotovelada e rir junto com a lembrança, te contar da viagem que vou fazer...mas guardei tudo pra mim, seu silêncio me impede, é como se você me dissesse sem palavras que não está interessado em nada disso. Ainda quando conseguimos conversar há silêncio, esse esboço do fim estampado no nosso diálogo.
E eu tenho tentado de todos os jeitos, tenho fingido pra você que não estou angustiada com essa mudança, tentando todo dia acreditar que você não está diferente, como disse. Falo com você desviando do assunto, esperando que as coisas voltem ao normal... porque sei que se eu for entrar no assunto de novo acabaremos brigando, e não quero isso, porque dói muito mais. Dói muito mais o alarde do fim, dói muito mais ir embora na gritaria... é tão difícil! Até hoje não tive a coragem de bater a porta de uma vez, sempre acabei deixando uma brecha, esquecendo a chave. Ainda não consegui passar despercebida por nós dois e continuar a viagem, sem lembrar da gente, sem querer de novo. Mas não sei até quando vou aguentar continuar aqui, se eu for dessa vez, acho que não volto mais! 



segunda-feira, 17 de agosto de 2015

somos perfeitos antônimos


A gente se dá tão bem assim, sendo amigos que nunca concordam, quando somos confronto. A gente conversa batendo boca é assim o nosso jeito, o jeito que sorrimos, que damos nossas risadas verdadeiras. A gente se entende na contradição das palavras, é assim que fazemos sentidos, a nossa lógica é assim: contrariando o outro em tudo. É desse jeito que vamos bem, falando tudo ao inverso, é o nosso dialeto. Falamos sério brincando, brigamos sorrindo, discutimos o tempo inteiro e terminamos numa boa!
Mas quando nos inclinamos ao tratamento de casal, quando falamos a língua dos normais não nos entendemos. Fico chata, sem assunto, sem piada. Ele: seco. Perdemos a graça, o jeito. As palavras carinhosas de alguma forma se distorcem, as boas intenções são incompreendidas e acabamos brigando, de verdade.
Ele não é a minha paz, tampouco sou a dele. Embora ele diga que quer que fiquemos assim, a paz que ele me traz é ao contrário também, ele só é calmaria quando estou num turbilhão muito pior ou quando estamos em pé de guerra. Quando desejo ser doce e carinhosa,sempre penso numa maneira ao avesso para demonstrar, no mínimo termino ou começo a frase com um xingamento, uma crítica a ele, assim tudo se encaixa e tem graça.
O único momento no qual somos normais, um plágio barato de todas as outras pessoas é quando ficamos juntos, só eu e ele.  Aí sim, não temos nenhuma autenticidade, nada de excepcional.  Somos mãos dadas, carinho, chamego, sorrisos e olhares, cuidado... quando nos entregamos feito amantes, somos isso, sem nenhuma novidade, a não ser pra nós mesmos, porque queremos agradar o outro, confiamos nossa intimidade ao outro, somos parceiros, cúmplices, casal. Um clichê dos bons! Fora isso estamos sempre na contramão do outro, nos entendendo no desentendimento, no cinismo.
Mas aí, um dia do nada, ele começa uma briga por causa de um sonho meu com outro cara, totalmente sem importância, como se fôssemos mais, como se fosse um tipo estranho de ciúme, que eu nem entendo direito, porque nunca nos encaixamos nessa posição de casal, nunca fizemos esse tipo.
E aí eu penso que já vi tantas histórias de pessoas que seguiram o ritmo e as fases normais para se tornarem casal e acabaram mal, e já vi também histórias improváveis, que começaram tortas e deram certo que seria hipocrisia minha dizer que essa idéia da gente não me agrada. Seria falsidade dizer que não o imagino desse jeito, que nunca pensei que poderia ser a gente um desses casais estranhos, imperfeitos... porque de alguma forma já aceitei a ideia, já gostei sem saber bem como ela entrou nos meus devaneios, que o meu coração já quis isso antes mesmo de eu imaginar. E não seria surpresa se estivermos fazendo tudo ao contrário, se estivermos começando pelo fim, brigando tanto pra nos amarmos no final, porque somos o antônimo perfeito do outro, algum amor já deve haver.